Entrevista com Ronald Shakespear por Adrian Shaughnessy

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Ronald Shakespear é um prolífico designer da Argentina. Fundou a Diseño Shakespear faz meio século, especialista em identidade visual corporativa e sinalização urbana. Ele generosamente concordou em ser entrevistado sobre sua vida e obra e ofereceu uma fascinante visão sobre a prática do Design em seu país.

Você fundou a Diseño Shakespear faz 50 anos. Isso significa que você estaria em seus joviais 20 anos. O que o levou a iniciar o seu próprio estúdio?

Eu trabalhei em várias agências na década de sessenta, mas devo dizer que nunca me senti um publicitário, de modo que, logo eu comecei o meu primeiro estúdio com Gonzalez Ruiz, meu sócio neste momento. Mais tarde iniciei a Diseño Shakespear com meus filhos Lorenzo e Juan.
Agora eu tenho 71 e eu adoro fotografia e Design e esta é a minha maneira de viver. Me levanto muito cedo de manhã escrevendo ao som de Mozart. Nada a ver com motivar as pessoas a comprar alguma coisa.
Nunca pidas permiso (Nunca Peça Permissão), é o título do novo livro que estou trabalhando agora. Eu o batizei assim pelo que Orson Welles me disse quando eu o visitei em Madrid, perto da casa de Juan Perón – sem hora marcada. Logo Orson me convidou para ir a Plaza de Toros para ver a última corrida do Curro Girón (quem, depois da luta, deu a Orson as orelhas do touro como presente). Inesquecível.
Voltando para casa, fui visitar Jorge Luis Borges para uma sessão de fotos em seu escritório na Biblioteca Nacional.  Ele era o nosso poeta nacional. Ali tirei a minha foto favorita. Um privilégio que a vida me deu.

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Jorge Luis Borges fotografado por Shakespear em 1962

Señal de Diseño, Memoria de la Práctica, foi meu primeiro livro. Não é um livro sobre a teoria do Design. É uma reflexão sobre um longo caminho de 50 anos da prática e um olhar pessoal pelo cenário urbano e o impacto do Design nas pessoas. Os designers devem decifrar os códigos da audiência.

Havia algum estúdio ou designers na Argentina que você admirasse naquele tempo ou preferia olhar para fora para se inspirar?

Havia alguns com certeza, mas me interessava em ver as pessoas não só relacionadas ao campo do Design como Juan Carlos Distefano e Romulus Macció – ambos pintores – que me introduziram à prática da comunicação visual.
Claro, estava bem informado sobre Pentagram, Otl Aicher, Josef Müller-Brockmann, Armin Hofmann, Lance Wyman, Massimo Vignelli, Herb Lubalin, Paul Rand e muitos outros. Eles foram a base. E não quero esquecer de Kinneir Jock, aquele mago que me disse – quando trabalhamos no Plano Visual de Buenos Aires – “O homem fala em letras minúsculas e grita em maiúsculas”.
Eu me  encontrei pela primeira vez com Alan Fletcher, em 1964, em Fletcher / Forbes / Gill em Londres. Cada visita desde então, foi uma expressão intensa de uma maravilhosa amizade que começou sob a influência de nossa profissão em comum. T,enho uma memória terna da visita de Alan e Paola em Buenos Aires em 1987 e, em seguida, na cozinha de sua casa em Notting Hill, com martinis secos, é claro …
Foi lá onde li pela primeira vez os rascunhos de arte de The art of looking Sideways. Acreditei – como muitos – que era um livro escrito para mim.

Mas um dia Alan decidiu ir. Evidentemente o Grande Designer havia chamado ao Seu lado o Seu artista favorito. As vezes falo com ele. Ficou muitas coisas sem serem ditas.

Você tentou se encontrar com Herb Lubalin em New York nos anos sessenta. Pode nos contar sobre esta experiência?

Não queria parecer mais nostálgico do que realmente sou, mas eu amava o Lubalin (hoje também) e tratei de vê-lo em NYC fazem muitos anos, mas falhei. Herb me deixou uma boa quantidade das revistas “Upper & lower case” que guardo na minha biblioteca até hoje.
Quando passei na aduana do aeroporto de Buenos Aires no meu regresso, o oficial disse: “Diga-me senhor, você vai abrir uma banca de jornal?”
Me disseram que Lubalin queria ser pintor ao se aposentar. Infelizmente ele partiu antes de realizá-lo. Eu ainda tento. Usualmente sonho com o logo Mother and Child. Herb era certamente um gênio poético.

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Shakespear em 2012. Foto Xavier Martín.

Você definiu o seu trabalho como “fazer a cidade legível¨. Por exemplo, quando projetou a sinalização pública de Buenos Aires ou o metrô Subte. Seu estúdio possui colaboração de outros estúdios ou designers e pesquisadores para desenvolver estes megaprojetos?

“Não é que não possam ver a solução, é que não possam ver o problema” como diria Chesterton. O Design mudou mais nos últimos 20 anos do que nos 500 anos anteriores. Se tornou em uma disciplina extremamente dinâmica, devotamente dedicada a dar respostas satisfatórias a um público cada vez mais insatisfeito.
Temos uma equipe de pessoas muito bem treinadas com quem debatemos estes megaprojetos e usualmente convocamos outros antigos membros do estúdio para nos ajudar, especialmente na pesquisa de campo e na documentação.
O branding e a sinalização do subte de Buenos Aires foi projeto com meus filhos Lorenzo e Juan em 2008.

Diseño Shakespear é um estúdio familiar que você conduz com seus filhos Lorenzo e Juan. Pode nos dizer quais são os papéis no estúdio? Os estúdios familiares na Inglaterra são raros, algo semelhante acontece na Argentina?

Não, aqui também não é comum. Lorenzo começou seu próprio negócio ano passado e agora Juan é meu chefe. Ambos estudaram na Universidad de Buenos Aires.
Jorge Frascara, ex-presidente da ICOGRADA e professor emérito da Universidad de Alberta, nos conhece muito bem e escreveu esta nota sobre meus filhos e o estúdio faz alguns anos.

“Lorenzo é uma máquina, uma máquina de ideias, de vigor e eficiência. Pode ser que ele recebeu algo ou muito de suas habilidades para o seu soberbo Design durante a sua estadia no Pentagram em Londres, ou talvez desenvolveu sua própria capacidade durante sua estadia no Chile, onde estabeleceu um estúdio por um tempo. Talvez, ele resumiu tudo ao seu redor em uma auto alimentação; desde Alan Fletcher até um bom bife argentino, desde que brincava como uma criança com seu pai trabalhando perto dele, ao ouvir música selvagem até ler com sensibilidade e visão interior. Se alguém lê o seu currículo, vê um astro do Design em seus cinquenta vivendo no Norte super industrializado. Porém, ele tem 38 e trabalha em Buenos Aires, uma cidade encantadora mas não um mercado fácil para a prática profissional.
E depois há o Juan: uma rocha; a cama de rocha do estúdio. Ele dirige a área industrial e gráfica do Diseño Shakespear. Tem estabilidade de uma pessoa que entende a importância dos materiais, processos, negócios e pessoas no problema do designer. A terceira dimensão é seu campo. Treinado na Universidade de Buenos Aires, e a criação cotidiana com Ronald e Lorenzo, Juan projetou e dirigiu projetos de grande escala que dariam calafrios a muitos designers de renome. Sem dúvida, aos seus 35 é uma fábrica de ideias e capacidade de produção.
Mas, quando alguém se refere a Argentina como um lugar difícil para a prática do Design, é necessário fornecer algumas infirmações aos estrangeiros. Quando eu deixei o pais para vir para o Canadá em 1976, a inflação era 500% por ano. As estimativas da imprensa funcionavam para 48 horas, as propostas para os clientes requeriam habilidades estratégicas impossíveis, conhecimento político e econômico, e um grande olfato para sentir o futuro. Calcular os honorários era difícil igualmente. Eu trabalhava como designer freelancer e era um desafio não ir para ruína. Em uma situação como essa, como levar adiante um estúdio com uma grande equipe e pagar no fim do mês? Diseño Shakespear o fez. Reduzindo, terceirizando, com nova estratégia de marca, o fizeram. Logo, em 1981 a economia nacional entrou em colapso e as empresas estavam de barriga para cima graças a mais destrutiva política econômica da história. Argentina até este momento, principalmente pela administração na ditadura militar: uma fictícia valorização da moeda Argentina, combinada com uma baixa de impostos de importação ridícula. A consequência? Destruição das indústrias têxteis, eletrodomésticas e automotivas já que muita gente com recursos viajava para o exterior para comprar desde televisões em Miami até carros na Alemanha. Como poderia sobreviver um estúdio sem indústria local? Diseño Shakespear pode. Não me perguntem como.”

Entrevista: Adrian Shaughnessy

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