Projeto Acadêmico: Desenvolvimento de um sistema de Informação para Transporte Público de Porto Alegre

por: Amanda Fortes Dalla Valle Majó da Maia

Os transportes públicos coletivos são essenciais na vida de pessoas que trabalham, estudam e não possuem veículo próprio, principalmente para aqueles usuários com baixa renda. É também uma segunda opção para quem já possui seu meio de transporte pessoal. Sem eles, o acesso a locais de longas distâncias, tanto em cidades grandes quanto pequenas, torna-se praticamente inviável.

No Brasil, a cidade de Porto Alegre, com mais de 1 milhão e meio de habitantes, apresenta uma infra-estrutura urbana adequada sob o ponto de vista do número de opções e transportes que circulam na cidade. São mais de 400 lotações, 620 veículos escolares, quase 4000 taxis e 1600 ônibus, que totalizam cerca de 6800 veículos, de acordo com a EPTC – Empresa Pública de Transporte e Circulação. Para confirmar esta afirmativa, comparamos o transporte de Porto Alegre com o de Curitiba, que apresenta apenas 2400 veículos em sua totalidade, incluindo taxis, ônibus e linha turismo.

Apesar deste ponto positivo, a capital gaúcha ainda carece de um sistema de informação para organizar esta imensa frota de veículos públicos. A ineficiência da informação torna o deslocamento pouco acessível e dificultoso, acarretando na desorientação por parte dos usuários. Levando isso em consideração, este texto apresenta os resultados de uma pesquisa realizada ao longo de 2010 sobre o transporte público de Porto Alegre e sua problemática e ineficiência no âmbito da informação. Além disso são demonstradas soluções viáveis para a adaptação de uma nova sinalização para os pontos de parada e terminais, bem como frota, mapas e informações da rede (itinerários, tarifas e tabela horária).

O método utilizado para a criação deste projeto foi o de Bruno Munari (2002). Para tal, foram definidos os seguintes conceitos: funcionalidade (priorizando a organização das informações sob o ponto de vista do usuário), originalidade (no sentido de resgate à origem dos elementos e não na produção de algo original – novo) e simplicidade (soluções de simples configuração gráfico visual e estético formal com o objetivo de garantir a qualidade e a clareza da informação).

Além disso, foi feito um levantamento de referências nacionais e internacionais, com intuito de embasar o desenvolvimento do projeto. Para este estudo buscou-se sistemas existentes que atendessem aos conceitos determinados anteriormente. Foram eles: Subte em Buenos Aires, Tube (ou Underground) em Londres, RER (Réseau Express Régional) em Paris e Subway em Nova York.

Referências do projeto

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Após a fase de pesquisas, iniciou-se o processo de rafes e criação de propostas. Primeiramente optou-se por trabalhar a organização do sistema em si e de suas linhas. Como a cidade já era dividida por regiões (norte, sul, leste e central) optou-se por manter esta divisão, também para facilitar o entendimento por parte do usuário já familiarizado com o sistema. No entanto, neste projeto, as zonas passaram a ser identificadas por cores e não por empresas, como é atualmente. Por exemplo, grande parte das linhas que se deslocam e atendem a região sul são da empresa STS . Sua principal cor (na identidade) é azul e, portanto, a caracterização desta região torno-se azul. O mesmo ocorreu com a Carris – amarelo (linhas circulares, centrais e transversais), Unibus – verde (linhas que atendem a zona leste) e Conorte – vermelho (linhas da zona norte).

Organização das regiões de abrangência do Sistema

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Neste momento também foram feitos estudos de cores e tipografias, com intuito de definir um padrão no uso destes elementos. A família tipográfica escolhida, após testes com Helvética e Frutiger, foi a Univers, por ser uma fonte clara, simples e por ter se adaptado melhor à proposta do projeto.

Definição de tipografia e paleta cromática

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Posteriormente à delimitação das zonas da cidade e da organização do sistema, buscou-se uma solução para a identificação do sistema, já que, atualmente, os pontos de embarque e desembarque são identificados apenas por uma placa com o ícone universal de ônibus ou somente pelo abrigo em si.

Identificação atual de pontos de embarque e desembarque

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Rafes e testes digitais para elaboração da Identidade Visual para o transporte

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A solução final de símbolo foi baseada em um conceito de direcionamento e rotação que está representado pelas setas que remetem a todas as direções. A ideia foi transmitir a movimentação que o transporte realiza para alcançar os destinos finais, com máxima abrangência. Essas setas surgiram no processo criativo como acento da inicial da palavra ônibus. O símbolo apresenta a vogal “O” como a inicial identificadora do sistema (assim como o metro, representado pela letra “M”), visivelmente representada pelo círculo central. Em relação à cor, optou-se pelo laranja pra não haver ligação com nenhuma outra cor do sistema já utilizada na organização das regiões da cidade. A tipografia utilizada para designar ônibus manteve-se Univers para criar um padrão no sistema, já que será utilizada ao longo do projeto. Ela também foi escolhida devido a sua adaptação ao símbolo, que criou uma composição harmônica com o restante do sistema projetado.

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Após a definição da identidade do sistema foi possível conduzir os rafes para a adaptação da informação nos pontos de parada. Para tal, foram definidos 04 padrões diferentes de demanda de informação:

Padrão 01: representa os terminais da cidade

Os terminais possuem uma demanda muito grande de informação. É onde as pessoas mais circulam e fazem conexões com outras linhas. Portanto, definiu-se que seria necessário adaptar informações relacionadas a itinerário, horários e linhas. Também fez-se importante a presença de um mapa discriminando o percurso da linha de um terminal a outro.

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Padrão 02: representa os corredores e principais avenidas

Corredores de ônibus e avenidas também possuem alta demanda informacional. É onde cruzam grande parte das linhas do sistema e também podem oferecer conexões para outras rotas. Para este padrão, definiu-se que era necessário adaptar as mesmas informações que nos terminais, porém, eliminando as tabelas de horário.

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Padrão 03: representa as ruas e bairros

É uma adaptação dos padrões anteriores para ruas e bairros, onde não foi detectada alta demanda de informação, podendo assim, utilizar poucos elementos. Normalmente, neste estilo de parada não há muitas linhas, e portanto, determinou-se que o uso da informação seria o mínimo necessário, podendo haver alterações caso necessário.

Padrão 04: representa parada simples ou emergenciais (em caso de mudança repentina de rotas)

O último padrão determinado apresenta a configuração mais simples do sistema: uma placa com apenas o símbolo e a palavra ônibus que identifica o ponto. Esta placa tem como objetivo sanar necessidades emergenciais ou em casos raros nos quais não seja possível a adaptação de informações, como por exemplo, calçadas muito pequenas.

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Além dos padrões, com base no itinerário determinado no início do texto, foram definidos adesivos internos para veículos, a serem adaptados nas portas de saída do ônibus e mapas impressos para serem distribuídos em hotéis, centro de informações turísticas, pontos de referência e pela própria EPTC.


Mapas e Adesivos criados para completar o Sistema Informacional

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Em relação à frota, após alguns estudos optou-se por utilizar uma configuração simples, porém que auxiliasse na identificação do veículo à distância, dando tempo para a tomada de decisão do usuário. O layout do veículo pretendeu falar por si só qual a zona que pertence para que os usuários conseguissem identificá-lo de longe. Portanto, a frota basicamente se caracteriza pela cor e pelo símbolo do sistema. Indica-se também a utilização das legendas nas laterais dos veículos, assim, o observador consegue identificar a zona pela cor e pela escrita (redundância de informação). Aconselha-se também a aplicação da marca de cada uma das empresas responsáveis na zona mais nobre do veículo: ao lado esquerdo das portas principais de entrada, facilitando sua identificação e mantendo os vínculos de cada um dos consórcios com o sistema.

Frota

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Aplicações e ilustrações da solução final

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Este projeto passou por diversas fases para alcançar este resultado final. Todas as etapas foram validadas em campo com usuários do sistema. O trabalho também foi apresentado para a prefeitura municipal de Porto Alegre e para a SECOPA – Secretaria Municipal da Copa do Mundo FIFA 2014. Ambos órgãos não pareceram interessados em realizar investimentos quaisquer para a melhoria da qualidade da informação no transporte público de Porto Alegre.

Texto adaptado a partir do Trabalho de Conclusão de Curso de Amanda Fortes Dalla Valle Majó da Maia, pela ESPM/Sul em 2010. Para acessar o manual resumido, acesse este link.

MAIA, Amanda. Design informacional dos transportes públicos coletivos de Porto Alegre. Escola Superior de Propaganda e Marketing. Porto Alegre, 2010.

MAIA, Amanda. Desenvolvimento de um sistema de informação para o transporte público de Porto Alegre. Revista Infodesign, 2011.

Amanda Maia
@mandymaia

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